Felipe Pimentel Palha
Desde
meados da década de 1990 os diversos governos que assumiram o país aprofundaram
a inserção brasileira à economia mundial de maneira subordinada contribuindo
para o crescente quadro de desindustrialização e reprimarização das
exportações. O consenso em torno desse modelo econômico, nas mais diversas
escalas, decorreu da aplicação do neoextrativismo, haja vista, o Estado ter
recorrido durante esse período a diversas estratégias que legitimaram a opção
de se reposicionar como fornecedor de commodities dentro da Divisão
Internacional do Trabalho. Foi aprofundada, desde então, a exploração dos
trabalhadores e da natureza em um contexto altamente financeirizado. A
legitimação de atividades tão devastadoras como a mineração tem maior êxito em
municípios como o de Brumadinho em decorrência de um quadro de pobreza em
termos de renda monetária e baixa diversidade de atividades econômicas que é
agravado pelos parcos incentivos às atividades de agropecuária associados à
desvalorização do campo, do rural e de seus moradores representados como
sinônimos do atraso. O município de Brumadinho está situado na região do
Quadrilátero Ferrífero e faz parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte
compondo, com o município de Nova Lima e outros, o vetor sul de expansão da
RMBH que é caracterizado por um processo de produção do espaço altamente
segregador. Construí o meu objeto de pesquisa diante dessa dinâmica de produção
do espaço aparentemente paradoxal entre o urbano da metrópole belo-horizontina
e o rural da minério-dependência traçando como objetivo principal a compreensão
dos impactos, das transformações, dos conflitos e das adaptações nas relações
estabelecidas entre o campo, a cidade, o rural e o urbano, decorrentes da
constituição, ainda inacabada, da sociedade urbana. Um dos aspectos marcantes
da produção do espaço no vetor sul da RMBH, com implicações sobre o município
de Brumadinho, trata-se da representação do campo e do rural que o compõem de
maneira idílica. A análise crítica, na forma de revisão bibliográfica
confrontada com o campo em Brumadinho, das propostas em torno do “novo rural”
indicaram total descolamento desse arcabouço teórico com a realidade contribuindo
para afirmar que permanece válido, no caso da formação espacial brasileira, a
interpretação de que a elite agrário-mercantil-exportadora, metamorfoseada em
um leque de diversas posições, detém posição hegemônica. A representação do
campo e do rural idílicos, bem como a sua materialização, tem a farta
disponibilidade de água como um de seus elementos centrais. Entretanto, a
produção do campo e do rural idílicos não ocorre sem conflitos e a disputa pela
água parece ocupar um lugar central com fortes traços de injustiça
ambiental-hídrica. Conflito que se tornou ainda mais grave em decorrência da
captação de água subterrânea da Serra da Moeda pela empresa Coca Cola FEMSA
instalada no distrito industrial de Itabirito. Enfim, a produção do campo e do
rural idílicos, no contexto da minério-dependência, apesar de propor solucionar
o problema da condição de subalternidade dos moradores do campo, dissimula
várias finalidades reais e pode contribuir para agravar a injustiça ambiental.
#Brumadinho #Minério-dependência #Sociedade
urbana #Injustiça ambiental-hídrica.
